Terça-feira, Maio 14, 2013

Sextante.

Nem toda a escrita se quer autobiográfica, nem toda a autobiografia se quer escrita.

Terça-feira, Agosto 28, 2012

Estante.

Domingo, Agosto 12, 2012

À socapa.

Vejo agora que te deixei agitado. Ou talvez tenha tomado a agitação pela curiosidade. Mutatis mutandis, acaba por ir dar ao mesmo: ditados noutras línguas, com gatos e coelhos à mistura, sem que aqui te seja fatal a tua minúscula peregrinação diária. Se me encontras calado, voltas noutro dia; deixas a porta entreaberta, para espreitar à socapa.

Terça-feira, Julho 24, 2012

Chá.

Segunda-feira, Junho 18, 2012

The lost art of conversation.

Conversation is life, language is the deepest being. We see the patterns repeat, the gestures drive the words. It is the sound and picture of humans communicating. It is talk as a definition of itself. Talk. Voices out of doorways and open windows, voices on stuccoed-brick balconies, a driver taking both hands off the wheel to gesture as he speaks. Every conversation is a shared narrative, a thing that surges forward, too dense to allow space for the unspoken, the sterile. The talk is unconditional, the participants drawn in completely.

This is a way of speaking that takes such pure joy in its own openness and ardor that we begin to feel these people are discussing language itself. What pleasure in the simplest greeting. It's as though one friend says to another, "How good it is to say 'How are you?'" The other replying, "When I answer 'I am well and how are you,' what I really mean is that I'm delighted to have a chance to say these familiar things — they bridge the lonely distances.

[ Don DeLillo: The Names. ]

Revisão.

Ciências da comunicação.

Não há diálogo possível com um monólogo.

Edição crítica.

Aponho aos textos que escreves comentários invisíveis à margem, quase frase a frase — uma espécie de edição crítica, de notas para a leitura da obra de. Dir-me-ás que os critérios editoriais não foram bem definidos; que há lacunas e imprecisões graves; que estas anotações não servem para outro leitor que não eu; que «isso não é bem assim». Enganas-te, e eu sorrio.

Farol.

Segunda-feira, Maio 28, 2012

Food and drink.

Segunda-feira, Maio 21, 2012

Uma mentira para o ano novo.

Entre o fim do ano velho e o início do que se lhe segue, houve duas mortes — a de um animal querido, a que me parece ainda ouvir os passos ou o ladrar, quando entro na casa onde o encontrava sempre, e a da minha avó paterna, que nos últimos anos se apagara aos poucos e constantemente, até pouco mais restar do que os contornos hesitantes do seu corpo. Em Março, o título de um post aqui deixado mentia: não estava de volta à vida. À data, foi a mentira deste ano, até porque não tenho queda para o género. De então a esta parte, aconteceu o que acontece sempre: projectos e planos (que não são sinónimos), noites passadas em boa companhia, conversas até horas simpáticas, a escrita e a fotografia a sair da hibernação teimosa em que se encontravam, um desvio na carreira de tradutor-traidor, concertos, os dias mais longos. Na estante que habita o vazio que antes existia por baixo da janela do meu escritório, os livros começaram a multiplicar-se. Bom sinal, digo eu. E agora, se não se importam, de volta à vida.

Afins.

Departures.

Along some northern coast at sundown a beaten gold light is waterborne, sweeping across lakes and tracing zigzag rivers to the sea, and we know we're in transit again, half numb to the secluded beauty down there, the slate land we're leaving behind, the peneplain, to cross these rainbands in deep night. This is time totally lost to us. We don't remember it. We take no sense impressions with us, no voices, none of the windy blast of aircraft on the tarmac, or the white noise of flight, or the hours waiting. Nothing sticks to us but smoke in our hair and clothes. It is dead time. It never happened until it happens again. Then it never happened.

[ Don DeLillo: The Names. ]

Factos e fatos.

Confunde-se o facto com o fato e vice-versa, mas num enterro não se veste o facto — só o fato. O facto, esse, fica escondido por baixo do fato, rente à pele. Eis assim factos e fatos: o facto do corpo que desce à profundeza relativa daquele rectângulo imposto a uma terra dura, invernosa; os fatos dos que ficam com os pés assentes na terra acima e assistem silenciosos à sua descida.

Sexta-feira, Março 09, 2012

E os amigos, como estão?

Um filme numa língua que não a minha, como tantos dos que vejo. E os amigos, como estão? Os amigos estão longe. Parte deles, pelo menos. Andam espalhados pela Europa; alguns vivem ou passaram a viver noutro continente. Os que estão por cá é raro vê-los: trilhamos caminhos paralelos na mesma cidade, e passam-se anos sem nos cruzarmos. Vêm-me à cabeça sete versos de Daniel Jonas e um de John Donne. O de Donne — que se tornou um chavão incontornável — repete-se como uma mnemónica, um risco no vinil, No man is an island, entire of himself, e eu na azáfama das chegadas e partidas que tornam os países do meu mapa-múndi pessoal cada vez mais longínquos uns dos outros e de mim. Há na porta do frigorífico uma garrafa de Sauvignon, que normalmente me levaria a pôr em cima da bancada da cozinha dois copos, servir o vinho, fazer conversa até horas impróprias. É coisa que não faço há algum tempo e a que sinto a falta. Como torno eu presente quem está em Londres, Bruxelas, São Francisco, São Paulo, sem que seja pela memória ou pelo éter com que se cosem agora tantas das minhas amizades? Não torno, por não haver como. A distância vence este assalto.

Back to life.

Diáspora.

Mil e trezentos quilómetros entre os dois extremos desta conversa. Chamada via Skype para Londres, onze minutos e cinquenta e dois segundos: não falamos, deixamo-nos ficar a ouvir os ruídos de fundo um do outro — tu num café simpático, o sol a entrar, a fazer-te franzir a cara, olhar para o lado; eu aqui em Lisboa, no escritório da casa em que vivo há oito anos, aquecedor apontado aos pés, chá ao lado.

Ill wind.

Vento tolo
tu és como aqueles amigos
que arranjaram colocação algures
e depois já nem conversam
e se vão
inchados de certezas
e jornais.


[ Daniel Jonas: Os Fantasmas Inquilinos. ]

Sexta-feira, Fevereiro 03, 2012

Lull.

Como se não bastasse, perto do final do primeiro episódio da primeira temporada de Bored to Death, ouve-se um excerto disto. Mas não era necessário: após os dois ou três primeiros minutos, é difícil não ficar rendido ao charme neurótico e intelectualmente desbocado de Jason Schwartzman, no papel de Jonathan Ames — um escritor feito detective privado, para quem a escrita do segundo livro se está a demonstrar particularmente tumultuosa. Aqueles vinte e poucos segundos de uma das melhores músicas de Andrew Bird foram apenas, recorrendo ao batidíssimo cliché, a cereja em cima do bolo.